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Vitória Maria Barbosa

Occupation
Intervenção
Aqui estão alguns registros de um processo de amplitude e profundidade imensuráveis: a intervenção em um hospital psiquiátrico.

Este é um convite para reflexões: HOMEM TEM QUE SER HOMEM!!!


"Homem tem que ser homem"
* citação escrita com fezes numa das celas fortes desativadas do hospital João Ribeiro
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February 24

O Que é, o Que é?

Viver e não ter a vergonha de ser feliz!!

 

Esperei e sonhei por este dia!

simplesmente estar: cantar, sorrir, sentir paz.

Foi em dezembro. A confraternização dos moradores dos SRT´S (serviços residenciais terapeuticos).

A casa, a casa deles. Deles que estavam abandonados.

Esta festa, esta alegria, as canções, os sorrisos, formaram em mim e são, uma das lembranças mais preciosas e fortes que agora tenho.

Novas imagens, agora sim, para realmente não esquecer!!

 

 

O Que é, o Que é?

Gonzaguinha

Composição: Gonzaguinha

Eu fico com a pureza das respostas das crianças
É a vida, é bonita e é bonita
Viver e não tenha a vergonha de ser feliz
Cantar (e cantar e cantar)a beleza de ser um eterno aprendiz
A meu Deus, eu sei, eu sei que a vida devia ser bem melhor e será
mas isto não impede que eu repita
é bonita, é bonita e é bonita
(simbora todos)

Viver, e não ter a vergonha de ser feliz
Cantar (e cantar e cantar) a beleza de ser um eterno aprendiz
eu sei que a vida devia ser bem melhor e será
mas isso não impede que eu repita
é bonita, é bonita e é bonita.

E a vida?
e a vida o que é diga lá, meu irmão?
ela é a batida de um coração?
ela é uma doce ilusão?
mas e a vida?
ela é maravida ou é sofrimento?
ela é alegria ou lamento?
o que é, o que é meu irmão?

Há quem fale que a vida da gente
é um nada no mundo
é uma gota, é um tempo
que nem dá um segundo
há quem fale que é um divino
mistério profundo
é o sopro do criador
numa atitude repleta de amor
você diz que é luta e prazer
ele diz que a vida é viver
ela diz que o melhor é morrer
pois amada não é
e o verbo sofrer

Eu só sei que confio na moça
e na moça ponho a força da fé
somos nós que fazemos a vida
como der ou puder ou quizer

Sempre desejada
por mais que esteja errada
ninguém quer a morte
só saude e sorte

E a pregunta roda
e a cabeça agita
fico com a pureza da resposta das crianças
é a vida, é bonita e é bonita

Viver, e não ter a vergonha de ser feliz
Cantar (e cantar e cantar) a beleza de ser um eterno aprendiz
eu sei que a vida devia ser bem melhor e será
mas isso não impede que eu repita
é bonita, é bonita e é bonita.


July 05

Tarde de Maio

Vasculhando meus arquivos, encontro este texto. É de 2002. Hoje, aqui em 2005, vivo a dissolução daquilo que me perseguiu desde aquele dia como um grande e sofrido pesadelo.

Sinto mesmo uma grande emoção por participar da construção de novos caminhos, que surgem e se abrem após esta dissolução, de estar perto das pessoas, de estar junto das pessoas, vendo suas mudanças, suas conquistas, seus novos passos...

Sinto mesmo uma plenitude fecunda: compreendo cada vez mais o que faz valer a nossa existência!

Vejam o texto:

 

 

 

FOI NUMA TARDE DE MAIO: UMA VISITA A UM HOSPITAL PSIQUIÀTRICO, AQUI MESMO EM CAMPINA GRANDE.

DURANTE O CAMINHO, O MOTORISTA PERGUNTOU-ME SE EU TRABALHAVA LÀ, COM A RESPOSTA NEGATIVA ELE PASSOU A NARRAR UMA VISITA FEITA A UM AMIGO QUE SE INTERNARA NAQUELA INSTITUIÇÂO: É MUITO TRISTE, DISSE ELE, QUER DIZER, É TRISTE PRA NÓS PORQUE PRA ELES TANTO FAZ; SÃO LOUCOS MESMO!!!

ESTA CONCEPÇÃO CAUSOU-ME ESPANTO, AFINAL, SERÁ QUE TODOS PENSAVAM ASSIM TAMBÉM? O LOUCO NÃO EXISTE COMO SUJEITO? NADA PERCEBE? NADA SENTE? QUEM PODERÁ ENTÃO OUVI-LO?

FOI CHEIA DE INTERROGAÇÔES QUE LÁ ENTREI.

O PRIMEIRO CONTATO: UM CHORO MAIS PROFUNDO QUE BARULHENTO. UMA SENHORA DE IDADE, COM SORO NO BRAÇO, CHAMA-ME COMO SE ESTIVESSE PEDINDO SOCORRO. DENTRO DO SEU CHORO, SOLTA BAIXINHO E COM SOFREGUIDÃO A SUA VOZ: “ A COMIDA DAQUI, EU NÃO AGUENTO, PEÇA PARA MUDAR...EU NÃO AGUENTO”  VERDADE OU LOUCURA?

CONTINUO. PAREDES FRIAS, AR FÉTIDO, GRITOS, GRADES. NAS ROUPAS DE ALGUNS FUNCIONÁRIOS ESTÁ ESCRITO: ‘ SEGURANÇA’ .

ATRÁS DAS GRADES, ELES PRESSENTEM, APESAR DA LOUCURA, QUE TEM ALI PESSOAS NOVAS E GRITAM, E PEDEM, TENTAM CONVERSAR: “ UM CIGARRO!” “ UM REAL!” , UMA FALA: “ HOJE É O ANIVERSÁRIO DE MINHA FILHA! ELA TEM DEZESSEIS ANOS, É, EU TENHO UMA FILHA!”  HOMENS JOVENS, HOMENS VELHOS, HOMENS NUS, HOMENS ATRÁS DAS GRADES. VERDADE OU LOUCURA?

ALA DOS CONTIDOS. AMARRADOS PELOS BRAÇOS E PERNAS, SORO NAS VEIAS, ALGUNS SEM ROUPA, NUM SONO DE MORTE. NA PELE DE ALGUNS, DÁ PARA PERCEBER AS FERIDAS DE UMA POSSÍVEL TENTATIVA DE LIBERDADE. ALMAS AMARRADAS. VERDADE OU LOUCURA?

ATRÁS DE OUTRAS GRADES, MULHERES. NOS QUARTOS NADA: NEM ARMÁRIOS, NEM TELEVISÃO, NEM ENFEITES. NADA ALÉM DE ALGUNS PEDAÇOS DE ESPUMA E ALGUNS PROJETOS DE CAMA: “ É QUE ELAS RASGAM TUDO, MAS NINGUÉM DORME NO CHÃO! DE NOITE NÓS TRAZEMOS O COLCHÃO. NÃO TEM NADA AQUI PORQUE ELAS QUEBRAM” NOS INFORMA UMA FUNCIONÁRIA.             NUM DESSES CONJUNTOS DE PAREDES, UMA MULHER COÇAVA COM VORACIDADE A CABEÇA. TALVEZ OS SEUS PIOLHOS FOSSEM OS ÚNICOS A ATESTAR QUE ELA AINDA ESTAVA VIVA.

NAS PAREDES, ALGUNS RABISCOS, ALGUNS DESENHOS: ALGUMAS TENTATIVAS DE AFIRMAR A EXISTÊNCIA, ALI ONDE O SUJEITO NADA TEM QUE O IDENTIFIQUE (ALGUNS DESTES RABISCOS FEITOS COM AS PRÓPRIAS FEZES). VERDADE OU LOUCURA?

NA ALA DAS MULHERES SEM ‘ GRADES’ , UMA CARREGA NO COLO UMA BONECA E ME DIZ CHEIA DE ORGULHO: ‘ EU TENHO UMA BONECA. O NOME DELA É MIMADA.’

OUTRA CHORA. CHORA ALTO E COM DESESPERO. UM CHORO CRU, UM CHORO PELA CONDIÇÃO MISERÁVEL DO EXISTIR, E QUE NÃO É SOMENTE DELA. É DE CADA UM DE NÓS, POIS QUEM PODERÁ GARANTIR A NOSSA RAZÃO? E SE A PERDEMOS, QUEM PODERÁ GARANTIR QUE TENHAMOS DIGNIDADE?

O QUE ALI ERA LOUCURA E O QUE ERA VERDADE? AQUELA VERDADE NÃO ERA A PRÓPRIA LOUCURA?

SOMADAS AS TANTAS INTERROGAÇÕES INICIAIS, SAÍ DE LÁ COM INDIGNAÇÕES. SAÍ DE LÁ COM MUITAS DORES: NA ALMA, NA GARGANTA. AQUELES GRITOS E SILÊNCIOS QUE LÁ VI, DENTRO DAS GRADES, EU AS TROUXE PARA AQUI DIVIDIR COM VOCÊS.

ESTA É UMA CAUSA DE TODOS NÓS, POIS DIZ DE NÓS. 

 

VITÓRIA MARIA BARBOSA

 

(TEXTO LIDO NA CÂMARA MUNICIPAL EM OCASIÃO DA SESSÃO ESPECIAL DO DIA NACIONAL DA LUTA ANTIMANICOMIAL) 24 DE MAIO 2002.

July 04

Comentário de Waleska

Resolvi publicar este comentário de minha irmã/amiga Waleska. Ela se faz presente em todos os momentos de minha vida de uma maneira completa: me dando forças, toques, luz, enfim, amor!

 

 

 

Vick:

Fiquei muito lisonjeada pelo Intervenção ter sido aberto com meu texto. Ele só foi possível porque escutei atentamente seus relatos emocionados e sensíveis. Você é uma pessoa muito especial e que, certamente, fez a diferença no processo de Campina Grande.

Tomara que o blog seja bastante visitado, que as pessoas entendem mais sobre a Reforma Psiquiátrica e que passem a enxergar essas outras pessoas que sob o título de loucas são esquecidas, apagadas, expurgadas, simplesmente, tornam-se invisíveis.

Vê-las realmente não é fácil por trazer muitos questionamentos, por nos colocar, nós os sãos, no nosso verdadeiro lugar. E que lugar seria? Não sei definir...Sei que é muito frágil, muito passageiro, muito fio da navalha, muito faca de dois gumes, muito a corda do picadeiro.

Admiro demais você, seu trabalho, sua alma. Quero ver o blog completo - com todas as suas observações e impressões. Com todo o seu amor. E por falar nisso... "todo o amor que houver nessa vida pra você"!!!

Publicado por Wal (http://spaces.msn.com/members/carnawaleska/) - 04 de julho 17:49

Os protagonistas:

 

A agilidade de Suzana;

O olhar multifocal de Florianita;

A atenção aflita de Cremilda;

A dedicação maternal de Mara;

A tranqüilidade inquebrantável de Fernando;

... tantos mais, tantos outros...

A diversidade orquestrada de pessoas do bem! Unidas para o bem!

Para/bens!!!

 

A equipe

“ são muitos os convidados, são muitos os convidados. Quse ninguém tem tempo, quase ninguém tem tempo...”

 

O amparo, uma corrente. A vibração nos ligando, fazendo com que na hora que um apagasse, outro ressurgisse com mais energia, dando assim, o tempo necessário para ´recarregar´.

Momentos de angústia, de noites passadas em claro, de lágrimas, do nosso corpo que adoecia, um após o outro. Momentos de intolerância, de ira. Momentos de força, de fé, de vontade.

Momentos de ruptura. Aos poucos, a equipe da comissão de intervenção foi perdendo alguns de seus membros, sobretudo aqueles que acompanharam o início do processo, e outros que chegaram depois.

Como nos sustentar?

Atuar em diversas frentes ao mesmo tempo: frentes burocráticas, políticas, operacionais, técnicas, humanas. Como fazê-lo sem não perder o diálogo? Sem não perder a unidade?

Desafio que se enfrentava nas conversas dentro do carro, nos horários de almoço, no final do dia, em cartazes, em cartas, em olhares, em gestos.

Um processo tão plural, de uma lógica também plural, porém única. Um objetivo paradoxal , portanto. Paradoxal, pois o tempo todo a nossa corrente de equipe se chocava com outras correntes, numa linha de tensão por vezes dolorosa: com as famílias, com os funcionários, com o poder público, com o controle social, enfim com os nossos próprios pensamentos.

Tensão que também faz exigência: ´se mexeram na ferida, que a curem, que sejam perfeitos!!´

As exigências

 

Quem somos afinal? Profissionais ou super-heróis?

A questão se levanta, pois está clara nas entrelinhas dos discursos escutados. A nós, cabe não cairmos na armadilha de tomarmos esta causa como nossa, cabe-nos distribuí-la com todos.

HOMEM TEM QUE SER HOMEM

 

 

HOMEM TEM QUE SER HOMEM


Intervenção

 

 

Intervenção: 1. ato de intervir; interferência...3. ato de um Estado intervir nos negócios dos outros... (Dicionário Aurélio)

 

Cá estamos nós, vivendo um processo de intervenção em um hospital psiquiátrico.  Intervenção que é jurídica, que é humanitária, que é tão intensa em tudo que agrega, que não cabe enfim em nenhuma definição de dicionários.

Acima de tudo a intervenção agrega palavras, agrega gritos, angústias, dores. Agrega sentimentos que em nós, crescem num sem limites, dando a estranha certeza de que as marcas lá sentidas ficarão em mim, mesmo que me falhe a memória, ficarão ainda acrescentando ao meu olhar um brilho de indignação, de suplica, de esperança.


1a Semana – Tensão

 

O fato em si. Muitas providências. Pouco tempo. Emoções diversas. Foi como manter suspensa a respiração, para então, expirar no sétimo dia.... que não era de descanso.

 

2a semana – Alívio

 

Podia-se respirar. Quebrara-se um ciclo de opressão.

Podia-se ver horizontes. Quebraram-se as grades.

Respirar a possibilidade de reivindicar o direito igual, o direito de sermos humanos.

“ Homem tem que ser Homem”.

 

3a Semana – Abrindo feridas

 

A ferida parecia agora ter o seu início.

Olhar bem dentro do que foi calado, do que foi maltratado.

Abrir, abrir, deixar sangrar...

Dona Josefa caiu. Derramou sangue. Nosso sangue.

Feridas que se abrem, feridas que começam a cicatrizar: “ oh abram alas que eu quero passar!”

Mudança da ala masculina para um lugar menos lúgubre: “ a idéia é trocar grades por gente”

Bolos, bolas, sorrisos, colchões, lençóis. Feliz experiência, e o melhor: sorrisos, muitos sorrisos.

Para as mulheres, um passeio: a casa da Ciranda.

“ esta ciranda quem me deu foi Lia, que mora na ilha de Itamaracá”

Giram as mulheres, na roda da ciranda, ciranda da vida, giram esperanças, gira a vida, entorpecendo-as, entorpecendo-nos.

A roda se abre, se fecha, o movimento: o que está por vir?


 

 

 

 

“ Existir-nos: a que será que se destina?”


02/05/2005

 

Hoje fazem 14 dias.

14 dias suficientes para assistir a anos de vidas desperdiçadas. Desperdiçadas pela degradação, pela loucura maior que é a maldade humana.Nada mais insano, nada mais vil, nada mais cruel, nada mais diabólico que a maldade humana.

O sentimento agora, é a junção de tudo e todos que o meu olhar alcançou, que minha lembrança absorveu: um choro desvairado, um olhar ensandecido, um canto que sobrevive ao escuro, um sorriso que se sobrepõe ao esquecimento, corpos cheios de chagas, corpos habitados por parasitas, almas habitadas pela solidão, mãos amarradas, gritos perdidos, rasgando com fúria o silêncio.

Olhares vazios e agudos, afiados feito flechas, que me entram, que me furam, que me fazem sangrar a alma.

A frase de uma música ecoa em minha mente: “ isto não é real! Isto não é real! Isto não é real!” e o desespero me toma: ISTO É REAL, ISTO É REAL!...: isto não poderia ser real. Isto não pode ser real!

Recolhida em meu silêncio, que agora se faz em junção com tantos outros, agora também meus, choro. E me pergunto de que vale chorar? Será que posso chorar por todos? Choro também por ser humana, choro de vergonha. Vergonha de ser humana. Choro de horror. Choro de lamento.

Queria gritar. Queria com um grito extirpar tudo, libertar tudo, fazer nascer, fazer romper...fazer brilhar.

“ Homem tem que ser Homem”.


“ diz que Deus, diz que dá, diz que Deus dará, não vou duvidar oh nega, e se Deus não dá, como é que vai ficar oh nega? Deus dará, Deus dará...”


03/05/2005

 

“... É A PARTE QUE TE CABE NESTE LATIFÚNDIO/ É A TERRA QUE QUERIAS VER DIVIDA”

 

 

Nunca me esqueci de Elba Ramalho, numa minissérie da Rede Globo, cantando enfaticamente: “... É A PARTE QUE TE CABE NESTE LATIFÚNDIO”

A minissérie tratava da seca, da seca do nordeste. O solo seco, rachado, o solo não dividido. Infértil.

            E, assim, encontramos no hospital, um imenso chão duro. Duro. Seco. Muito seco.

Solo habitado por vidas, desabitado pela vida.

Vidas que herdaram o mais nefasto abandono. O abandono.

Quartos escuros, paredes nuas.

No banho de sol, corpos nus se entregam deliberadamente às queimaduras do astro luminoso, que ali parece cruel, parece não brilhar, parece castigar, faz arder...única fonte de calor, provavelmente. “ o céu e o inferno são aqui mesmo”.

Vidas secas.

Apontar culpados? Sim, é preciso. Somos nós. Somos todos nós.

Nós que nos alienamos de todo o sofrimento que nos cerca. Nos que não dividimos a tragédia do existir.

Nós que nos horrorizamos e apenas lamentamos e fechamos os olhos e soltamos ohs de falsa compaixão, nós que nos eximimos de nossa parte, da parte que nos cabe neste latifúndio.

“ É A VIDA QUE QUERIAS VER DIVIDIDA”


 

“ em uma negra, densa e única floresta

Onde o que de mais importante resta

é o desejo contido, escondido na mais escura caverna

e é lá onde também hiberna, absoluto, o sonho

Estradas, sinais, sinais...

Lágrimas, lenços lençóis

Nós, escadas, degraus, ondas...

Naus em infinitos e revoltos mares”


03/05/2005

Madrugada

 

“ de que vale ser passarinho se não se pode voar?”

 

Acordo-me. É madrugada. Lá fora, posso escutar o canto dos pássaros.

Lembro-me que desde criança, jamais pude entender qual era o sentido de se ter pássaros em gaiolas. Parecia-me um prazer perverso e vão, cercea-lhes a liberdade para simplesmente vê-los e ter o seu canto aprisionado, como se não fosse possível escutá-los livres.

Imaginava planos de libertá-los. Fui advertida de que não poderia. Eles não mais sobreviveriam. Não mais saberiam ser livres. Esta descoberta mais ainda me doeu. Entendi o que era “ engaiolar pássaros”.

Então, dentro do hospital, num corredor cheio de um ar dolorido, numa ala desativada, onde funcionavam as “ celas fortes”, fortes na opressão, fortes na covardia, leio inscrições, as que ainda restam. Registros de histórias que jamais serão sabidas. Vejo os desenhos, as frases. As marcas de que a vida é sempre mais forte: “ Homem tem que ser Homem”.

Um detalhe toma minha atenção. São orifícios na cabeceira do protótipo do que seria uma cama. E recebo a explicação do homem que nos guia naquele passeio insólito, naquele corredor reto, porém labiríntico, pelas tantas interrogações que suscita.

Serviam (os orifícios) de uma espécie de imitação do sistema de uma gaiola. Através deles, se inseria um fino tablado de madeira (que servia como colchão, afinal, a madeira também conservava a temperatura do corpo, segundo o célebre inventor). Ali se podia mijar e cagar. Pelo lado de fora, era possível retirar o tablado, limpar a sujeira, e colocar de volta. Brilhante invenção! Resolvia-se assim, os gastos com colchões. Configurava-se assim, o engaiolamento.

Homens engaiolados.

Meu filho interroga sabiamente ao escutar este relato: “mãe, esse homem pensa que gente é pra ser tratada como passarinho?” respondo-lhe: “ é filho, mas passarinho também precisa ser livre e “ Homem tem que ser Homem”.Afinal, de que vale ser passarinho se não se pode voar? E de que vale ser homem, se não se pode sonhar?”


 

 

 

“ canta, canta passarinho, canta, canta, miudinho, na palma da minha mão, quero ver você voando, quero ouvir você cantando, quero paz no coração”


18 de maio de 2005

 

Um mês de intervenção.

Nas ruas, pela manhã fria, uma caminhada desfilava. a “ II Caminhada: Novos Rumos na saúde mental”.

Estavam lá os internos do hospital, os usuários dos CAPS´s, trabalhadores de saúde mental, estudantes...estavam pessoas.

Andando pelas ruas, no Dia nacional da Luta Antimanicomial, andando para um novo rumo.

Pela tarde, levo em meu carro os futuros moradores das residências terapêuticas. Margarida canta: “ Vitória, tu reinarás...” Heraldo, ansioso me pergunta se está cheirando mal, se merece tudo aquilo, se pode cantar. Sim pode cantar!! Canta: “ o sol nasce para todos...” Novos rumos se seguem.

Aquilo que não se esquece, sinto que precisamos esquecer. Lembrar agora outros caminhos, construir a vida, olhar para frente.

“tudo é uma questão de manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranqüilo”...

Vamos?


Fé cega, faca amolada

Composição: Milton Nascimento - Fernando Brant

Agora não pergunto mais aonde vai a estrada
Agora não espero mais aquela madrugada
Vai ser, vai ser, vai ter que ser, vai ser faca amolada
O brilho cego de paixão e fé, faca amolada
Deixar a sua luz brilhar
e ser muito tranquilo
Deixar o seu amor crescer
e ser muito tranquilo
Brilhar, brilhar, acontecer.
brilhar faca amolada
Irmão, irmã, irmã, irmão
de fé, faca amolada
Plantar o trigo e refazer
o pão de cada dia
Beber o vinho e renascer
na luz de todo dia
A fé, a fé, paixão e fé
a fé, faca amolada
O chão, o chão, o sal da terra
o chão, faca amolada
Deixar a sua luz brilhar no pão de todo dia
Deixar o seu amor crescer na luz de cada dia
Vai ser, vai ser, vai ter que ser, vai ser muito tranquilo
O brilho cego de paixão e fé, faca amolada


História da intervenção

Embora o processo de descrendeciamento do Hospital João Ribeiro tenha sido publicado em Diário Oficial em Julho de 2003, a partir dos resultados da revistoria do PNASH 2002, pouco foi feito no sentido de implementar tal processo no município de Campina Grande.
Diante das dificuldades encontradas pelos gestores locais, considerando que este é um dos 08 hospitais que passa por situação semelhante, o Ministro da Saúde determinou a intervenção nestes hospitais, sendo convocadas duas reuniões para pactuação do processo com a participação de outros níveis de gestão.
As reuniões ocorreram nos dias 23 e 24 de agosto no Edifício sede do Ministério da Saúde e no dia 16 de setembro na OPAS (Brasília /DF), ambas com a participação do município de Campina Grande através do Secretário de Saúde André Luis Bonifácio, Coordenadora de Saúde Mental Vitória Maria Barbosa e Dr. Luiz Salomão.
Consideramos que o processo de intervenção iniciou-se efetivamente em Campina Grande no dia 05/11/2004, com a visita a este município do Coordenador Nacional de Saúde Mental Pedro Delgado e Florianita Campos, assessora do Ministério da Saúde.

O INÍCIO DO PROCESSO
05/11/2004
Visita de Pedro Delgado e Florianita Campos aos seguintes espaços:
· CAPS II Novos tempos;
· Hospital João Ribeiro;
· Conselho Municipal de Saúde;
· CAPS AD.
Dia 11/11/2004 REUNIÃO
Local: Hospital João Ribeiro
Horário: 9:30

DEZEMBRO E JANEIRO

Início de um senso clínico no hospital, para um primeiro desenho da clientela lá existente.

O bicho homem no Hospital João Ribeiro

Pensadores ratificam: as coisas só existem a partir do momento em que são divulgadas.
A realidade do Hospital Psiquiátrico Dr. João Ribeiro já fazia parte da realidade de Campina Grande há quatro décadas e pelo mesmo período fez também parte e mudou a realidade de centenas, milhares de pacientes.
Mas para muitos essa realidade só passou a existir quando foi estampada nas páginas dos jornais, comentada pela imprensa radiofônica, mostrada na televisão, transformada em assunto principal nas rodas de conversa.
Não vamos falar da época em que os procedimentos do manicômio eram lícitos e aceitos ou mesmo da eventual ajuda que possa ter dado a seus internos e familiares. O fato é que os tempos mudaram. As Leis abarcaram a Saúde Mental e o tratamento àquele com transtorno psiquiátrico assumiu a premissa de que “aquele” era gente, enfim. Era ser humano.
Tudo isso aconteceu com o tempo. Mas não conseguiu adentrar o Hospital do Dr. João Ribeiro. Ali, as portas velhas e carcomidas emperraram e negaram a abertura às mudanças. Foi preciso intervenção. A ação do Governo Federal unido aos poderes locais. Aí, sim, também para especialistas uma outra realidade se mostrou.
Ali, protegidos da divulgação e, portanto, sem condições de se transformar em realidade visível e palpável, havia gente, ser humano. Muito embora essa dimensão já não fosse real e não passasse de conceito, talvez nem isso, para eles.
Ali, a dignidade, a cidadania, os valores, os direitos, a higiene, o respeito, os cuidados, a alimentação, tudo isso, havia recebido prefixos de negação, de contrário, de usurpação.
E foi preciso força para encarar tanta gente fragilizada. Não apenas pelas patologias psíquicas, mas pelo que não devia estar a elas associadas: piolhos, sarna, todo tipo de doenças de pele e de carências.
Pessoas nuas, com cabelos desgrenhados, famintos habitando espaços fétidos, dormindo sobre espumas igualmente fétidas e sujas. Regras baseadas na perversa “lei da sobrevivência” do “olho por olho, dente por dente”.
Era difícil manter-se humano ali. Mas vez por outra alguém conseguia. Como aquela pessoa...uma mulher. Sim, ela queria um brinco. Um brinco para enfeitar-se e mostrar e provar sua feminilidade era tudo o que queria. Por isso que pedia aos gritos, aos berros.
E quem será que tinha escrito na parede daquela ala com uma tinta inusitada, mas a única disponível e farta? Quem será que tinha usado merda, fezes para deixar sua mensagem? Quem será que tinha feito das suas necessidades fisiológicas um meio de externar suas necessidades psicológicas, sua crença, seu desejo de ainda fazer parte da raça humana? Não importa. Está lá. Não foi apagado. Está para ser lido por olhos sem nojo. “Homem tem que ser homem.”
Penso que se o poeta Manuel Bandeira pudesse fazer um contraponto, com outras tintas diria: “O bicho não era um cão. Não era um gato, não era um rato. O bicho, meu Deus, era um homem”.
* Waleska Barbosa/Jornalista
* ARTIGO PUBLICADO NO JORNAL DA PARAÍBA